sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Além do Abraço - parte 2

2 – Quem sou eu…

Meu nome é Lúcio, eu nasci em uma cidade pequena que nunca me trouxe nada. Com pessoas mesquinhas e pudicas. Hipócritas! Faziam de tudo no aconchego dos seus lares, todos sabiam e todos sorriam como se nada soubessem. Minha infância foi marcada pela violência das crianças estúpidas do lugar, eu era o queridinho da mamãe e sempre apanhava. Loirinho e de olhos azuis, muito bonito e machucado.

Minha mãe era sozinha e por isso se desdobrava em mil para poder fugir das fofocas do lugar, mas todos sabiam de onde ela tirava o dinheiro para sustentar eu e meu irmão, e depois de alguns anos eu também descobri por quê daquelas senhoras todas me olhavam de lado. Elas que cuidassem melhor dos seus maridos.

Na adolescência era o menosprezado da sala, o que não iria ter futuro, por que era muito burro. Enquanto meu irmão era o melhor da classe.

Não conto nada disso com rancor, esses detalhes não me importam mais, onde eu estou essas pequenas coisas não incomodam.

E foi nessa mesma cidadezinha que conheci a infeliz da minha mulher, tão mesquinha como todas as outras pessoas, mas com um quê a mais que me fazia identificar com ela, seu desejo de ir embora dali. E foi o que fizemos.

Antes de completar o segundo grau a menina engravidou e eu acabei casando e indo trabalhar num banco.

Perdemos o primeiro bebê, mas eu continuei feito um burro de carga para manter o nível de vida dela. Ela ficou grávida de novo. E quando completei meus 23 anos descobri que ela me enganava com outro. No mesmo dia eu fui levado por Albert para sua casa.

O motivo ainda estava vago na minha cabeça, mas minhas dúvidas logo seriam sanadas.

3 – O que Albert tinha a dizer.

Quando vi pela primeira vez a casa de Albert fiquei paralisado, eu nunca tinha estado em um lugar tão grande. Nunca entendi o por quê de casas como a dele serem tão altas e grandes.

A tapeçaria cobria o chão quase que inteiro. E quando olhei para trás, onde deveria estar a porta, vi uma passagem se fechando dentro de uma lareira.

Toda aquela decoração e mistérios determinavam o quanto Albert era velho, ele gostava das coisas antigas e quase não podia se acostumar com telefones, que para ele eram coisas da modernidade.

Voltando ao relato, quando saímos pude ver a casa de Albert pela primeira vez. Aquela sala, além de grande, era assustadora. Ela tinha a pele de um animal estendida no chão, naquele momento não pude determinar de qual animal, mas pude notar que parecia um urso ou lobo, mas com uns dois metros de altura.

Toda uma cultura tinha sido escondida de mim por toda a minha vida, e depois daquele dia eu não deixaria mais que isso acontecesse.

Albert estendeu a mão e mostrou uma poltrona de couro onde eu deveria me sentar e sentou-se, diante daquele lugar, em outra cadeira de couro bem em frente à lareira. Agradeci com a cabeça.

- Senhor Groher, deve-se estar perguntando o que é tudo isso. Chegou a hora de te explicar. Devo te pedir paciência e silêncio, por enquanto.

O relato que ele fez parecia saído de um filme clichê de vampiros, mas qual seria a resposta, até esse momento eu achava que vampiros eram coisas de cinema também.

Ele disse que estava me observando fazia alguns meses e havia me escolhido para uma missão, então decidiu revelar a traição de minha esposa me levando, de forma sutil, ao flagrante.

- Mas, não se preocupe eu deu um jeito na sua esposa.

- Como assim, jeito?

- Eu a matei.

- E minha filha?

- Não era sua filha.

- Não?

- O sangue dela, não era sua descendente.

Ele disse isso com uma frieza indescritível. Eu descobri naquele momento a dádiva de não possuir uma alma, também não se possui remorso.

De certa forma eu já desconfiava que ela não era minha filha, por isso a notícia não me chocou demais. Assim como a descrição, que ele fez com orgulho, de todas as crueldades que havia feito com as duas e o amante.

Estava tudo arrumado, inclusive meu funeral e meu túmulo, ao lado das duas, “Amado Pai e Esposo”. Também descobri que não havia aparecido ninguém para realizar tais tarefas.

Minha mãe estava morta, assim como os pais da minha falecida esposa, que não tinha irmãos. Portanto a única presença a ser sentida foi do meu irmão, que eu não falava há oito anos. Bom, justo toda essa situação.Albert escolheu bem sua vítima.

Senti admiração por ele, que plano perfeito. Mas, porque eu?

- Eu o escolhi por sua raiva Senhor Groher.

- Minha raiva?

- É, isso o torna fácil de dominar.

- O que o faz pensar que irei aceitar isso assim?

- Sua vontade de viver, de ser alguém realmente importante, e não um traste, como se acostumou a ser.

A raiva corria em minhas veias, mas consegui me acalmar.

- Calma, não vou simplesmente te dominar, vou te ensinar a ser alguém, vou te treinar como um vampiro poderoso e rico.

Ele sabia que eu não poderia negar, não agora que o mundo se abria para mim. Apenas sorri, e controlei minha raiva.

- Venha, vou te mostrar minha casa e a sua missão.


4 – A bela e mortal Ariadne.

Ele me levou por vários corredores da sua casa até chegar a um ginásio de esportes, onde eu vi uma das mulheres mais bonitas que haviam cruzado meu caminho. Ela estava praticando ginástica olímpica em duas barras.

Durante alguns minutos ficamos observando seus movimentos, e pude ver o orgulho pela sua cria nos olhos de Albert.

Depois de terminado o exercício ela nos notou e veio em nossa direção. Parou em frente ao Albert e fez uma reverência.

- Mestre?

- Querida Ariadne, gostaria de lhe apresentar minha nova cria, Lucio Groher.

Ela simplesmente me olhou nos olhos e não disse nada. Fez um sinal com a cabeça para mim, para Albert e voltou a treinar. Eu pude sentir uma pontinha de ciúme vindo dela.

Ariadne era uma mulher deslumbrante, com o corpo atlético e bem trabalhado, do tipo que enche os olhos. Aquelas mulheres que nunca olham para o lado enquanto andam. Ela tinha olhos e cabelos pretos como a noite.

Era muito estranho notar como a pele de um vampiro é pálida, mesmo em uma pessoa morena como Ariadne. Ela realmente me impressionou.

Então Albert me levou até o quarto que seria meu durante alguns meses, e me deixou dormir.

- Amanhã será um dia longo Senhor Groher, por isso, descanse.

O quarto era luxuoso como a casa e pela primeira vez eu me sentia totalmente sozinho, sem ninguém em quem confiar. Porém não me lembro de ter sido tão feliz como naquele momento, em que eu ainda não sabia o que viria a me acontecer.

Todas as traições e desventuras da vida de um vampiro ainda não haviam caído sobre mim. Porém, todas as mágoas da minha vida humana pareciam menores naquele momento e me senti confortável e sem culpa, finalmente sem alma e eterno.

5 – A minha missão.

Na noite seguinte sai do meu quarto cheio de disposição e medo e fui me encontrar com Albert na sala da lareira. Naquele momento começaria o meu treinamento.

- Senhor Groher, boa noite. Sente-se

Eu agradeci e sentei.

- O que o senhor imagina que seja a vida de um vampiro?

- Alimentar-se de sangue e essas coisas?

- É, podemos dizer que isso também faz parte da vida de um vampiro, mas não foi isso que eu perguntei.

Ele se levantou e começou a minha primeira lição.

- Humanos são alimento, nunca se esqueça disso. E vampiros não são confiáveis, nenhum. Essas duas regras podem significar a sua sobrevivência. Depois de muitas eras os vampiros descobriram isso, se organizaram e hoje somos apenas um mito para o mundo. Essa organização foi necessária, mas durante o processo ela foi corrompida por todos esses vampiros gananciosos, e eu pretendo me livrar deles.

- E a minha missão?

- Calma, já vou chegar lá. Na nossa cidade temos um governante vampiro, uma pessoa que dita as regras que devemos seguir, mas ele é muito vaidoso e descuidado. Eu pretendo tirá-lo do poder.

- E para que você precisa de mim?

- Eu faço parte de um conselho na nossa cidade, um conselho de antigos e eu represento a minha família nessa instituição. Eu não posso mover uma peça desse tabuleiro sem que desconfiem, por isso você está aqui. Você irá me ajudar a tirar Cassiano do poder.

- Mas, como? E quem é Cassiano?

- Cassiano é o líder dessa cidade, o governante instituído dos vampiros, uma pedra no meu sapato. E como? Bom, meu caro, você irá demonstrar aos outros anciãos do conselho como Cassiano é fútil e impressionável. E você, com seus olhos azuis, vai fazer isso por mim.

- Mas, você me criou. Todos irão desconfiar de você.

- Eu criei uma identidade secreta para você meu jovem, e ninguém, além das pessoas de minha inteira confiança, sabem da sua criação. Sua “chegada” na cidade e sua fama já foram providenciadas.

- E quem garante que esse tal Cassiano vai cair nessa.

- Ele é uma criatura fútil, ligada em demasia à fama e a garotos bonitos como você. Nada dará errado se você agir como eu mandar.

Um frio percorreu a minha espinha, uma intuição de que as coisas não seriam tão fáceis como Albert estava pensando.

- Mas por agora, eu vou ensinar-te a ser um vampiro real. Seus poderes e do que você é capaz de fazer. Além, é claro, de colocá-lo em seu papel.

Assim passaram-se três longos meses de estudo e treinamento nas artes vampíricas, e no final eu sabia o suficiente sobre o mundo vampírico para me passar pelos principais famílias da organização que o Albert representava.

Aprendi a me disfarçar e disfarçar a minha condição para os humanos, de forma que poucas pessoas desconfiassem de minhas intenções ou mesmo da minha natureza imortal. Afinal, nada poderia falhar diante do nosso líder, ele deveria acreditar que eu não era um recém vampiro, e sim que tinha muitos e muitos anos de experiência.

Também conheci melhor as técnicas de Ariadne. Com seus passos silenciosos, não foram poucas as vezes que me pegava de surpresa com um punhal em meu pescoço. Ela fazia questão de deixar clara a sua superioridade física sobre mim. Ela poderia estar na minha frente e eu ainda sim não poderia vê-la.

Porém, o principal, aprendi a ser frio como Albert. Tive aulas de etiqueta, de comportamento e grandes aulas de sadismo.

O papel que eu iria representar exigia isso de mim, e eu adorei. Eu deveria ser um artista do sangue, uma pessoa que fosse famosa por seus feitos sanguinários. Não apenas matar por matar, mas matar com requinte. Esse era o ponto fraco de Cassiano, o glamour, o requinte. E era exatamente aí que eu deveria atacar. A sociedade vampírica não aceitava bem quem poderia ser deixado levar por seus instintos, principalmente o líder da cidade. Frieza era um dos requisitos, segundo Albert, para ser um bom líder.

E Albert? Quem era aquele senhor ambicioso que havia me criado?Quais eram as suas reais intenções?

Ele passava horas me contando sobre a sociedade que eu havia acabado de entrar e sobre seu filho que mais o orgulhava, Bob.

Bob, segundo os relatos de Albert, era seu filho. Um outro vampiro, de quem ele sentia o maior orgulho. Bob era perfeito, e havia sido a primeira cria de Albert na América. Ele havia sido um dos marinheiros do barco que acompanhou Albert até aqui.

Com todas as suas histórias, Albert me deixava intrigado em qual seria a sua idade ou de onde ele vinha, já que pelo visto Bob havia sido vampirizado por volta de 1610.

Mas nunca víamos Bob. Ele, em todo o momento que estive na casa, nunca apareceu.

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