quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Jogo

<a href="http://mindflow.bandcamp.com/album/365">Thrust into this game by MindFlow</a>

Conto baseado na música Thrust Into This Game do Mindflow.

Carmo entrou em casa arfando. Tinha pouco tempo para levar suas coisas embora e sumir de vez daquela cidade. Mudar de país era uma boa opção também.
A luz da lua entrava branda pela janela, o suficiente para iluminar seus passos e por isso mesmo, acender a luz seria no mínimo imprudente. Chamaria atenção desnecessária.
- Com medo de algo, Carmo?
Ele olhou em volta, tinha certeza que estava sozinho até aquele momento. Precisava estar sozinho, aquela voz revelava muito mais que apenas uma presença, mas uma sentença de morte.
- Não, senhor.
- Ah, então não vai se incomodar que eu acenda a luz, não é?
- Claro que não, padrinho.
Mesmo vendo seu padrinho todas as noites por longos vinte anos, Carmo ainda se impressionava com a altivez dele. Um olhar capaz de trazer abaixo até o mais seguro dos homens.
Com a luz da cômoda acesa e a meia-luz da lua o ambiente parecia ainda mais ameaçador.
- Não vai abaixar sua cabeça, Carmo? Para que eu posso te abençoar.
- Claro, claro. Me desculpe.
O medo na voz de Carmo era evidente e perturbador.
Mesmo assim se abaixou em frente a Filipo, sem saber se o golpe seria naquele momento ou depois. Um pensamento macabro percorreu sua mente, que talvez fosse melhor acabarem logo com isso, a sofrer com a dúvida da sua punição por mais 10 minutos.
- Seja abençado.
- Obrigado, padrinho.
- Quer dizer que você ia fugir?
- Eu? Não faria uma coisa...
- Não subestime a minha inteligência, por favor.
Carmo abaixou a cabeça e decidiu não tentar fugir daquela situação e enfrentar como um homem pela última vez.
- Eu não quero morrer, Filipo. Por isso ia fugir.
- E eu seria o seu algoz?
- Agora você não subestime a minha inteligência. Se você está aqui pessoalmente, a coisa está ainda pior pro meu lado que eu imaginei.
- Isso é verdade. Eu não me deslocaria sozinho se não fosse uma coisa importante..
Filipo permanecia sentado em uma cadeira ao lado da cama de Carmo, que decidiu sentar-se também.
- E sabe porque isso é importante pra mim? Eu achei que não me preocuparia com a sua lealdade. Não com a sua. Mantive você próximo ao meu peito por muito tempo.
- Eu estava lá colocado, desde o começo. Tinha uma missão, padrinho.
- Não sou mais seu padrinho, Carmo. Não precisa mais me chamar assim.
- Certo, verdade.
Carmo sentiu o peso do costume em suas costas.
- Sabe, de princípio eu tinha um pressentimento que não poderia confiar em você, e o mantive por perto por isso mesmo. Você conhece o ditado tanto quanto eu.
- Sim, conheço.
- E com o tempo eu me esqueci, ou me fiz esquecer, desse primeiro pressentimento. Achei que você era mais que apenas um rato sujo.
- Eu não sou um rato sujo – disse Carmo sem emoção - Fiz o que me mandaram. Cumpri ordens, apenas.
Filipo resolveu se levantar e andar pelo quarto enquanto falava.
- Sabe, Carmo, tem uma coisa que você precisa saber sobre lealdade. Nessa vida que levamos tudo é um jogo. E acho que você ainda não entendeu.
- Devemos a lealdade ao nosso mestre até o final, isso que eu sei.
O mais velho dos dois quase não conseguiu conter o riso, Filipo não se divertia com uma frase há muitos anos.
- Eu disse que você não tinha entendido. A nossa lealdade está do lado de quem vai ganhar, Carmo. Só isso. Olhe para você agora, está a poucos minutos de uma morte terrível e porquê? Por quem? Ninguém está aqui para compartilhar da sua dor. Nem para te amparar.
- Eu tenho minha consciência ainda, Filipo. Isso você não vai me tirar!
- Consciência? Você tem certeza de ter estado lá do meu lado todos esses anos? Você matou pessoas inocentes para ter a minha confiança. Acha mesmo que eu acredito que você tenha alguma consciência? Seu maldito mestre não vale mais do que eu, por ter te mandado me vigiar. Você foi apenas um bom cão.
- Foi tudo para um bem maior...
- Claro que sim, você mentiu, matou e traiu por um bem maior. Sua alma foi vendida a um preço irrisório e você nem notou. Quase tenho dó de te matar.
- Pelo menos eu sei de uma coisa, todas as informações que eu passei servirão para te derrubar definitivamente!
- Acho que deveria ter sido um comediante ao invés de um espião, Carmo. Eu não vou cair. Vou permanecer aqui até quando quiser, e todo o seu esforço terá sido em vão. Ou você acha que eu sei da sua traição como? Eu tenho cães leais assim como você ao lado de seu mestre.
- Não é possível...
Toda a fé de Carmo parecia desvanecer de seu olhar.
- As pessoas que me colocaram onde estou vão continuar do meu lado enquanto eu fizer a minha parte no jogo. E pessoas como você serão esmagadas no processo. Como agora. Somos peões aqui, jogando o mesmo jogo, pena que você não entendeu.
Filipo chegou até Carmo com uma velocidade que apenas um imortal poderia, e sugou todo o seu sangue de uma vez.
- Boa sorte do outro lado, Carmo – disse Filipo, abandonando o corpo sem vida no chão.

Para conhecer mais sobre a banda Mindflow, clique aqui.
Para ver o clipe de Thrust Into This Game, clique aqui.
Para ouvir outras música do albúm, clique aqui.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Saudade


A saudade é um dos sentimentos mais estranhos que podemos ter. Além de ser uma coisa que só tem definição em português, afinal essa palavra não existe em outro idioma. Só a gente sente isso ou só a língua portuguesa se preocupou em descrever?

Tem uma música onde eu nasci que se preocupa em descrever essa palavra para nossos hermanos paraguaios, coisa de se morar na fronteira. E é bem difícil de definir, realmente.

Temos aquela saudade tranqüila, que vem de leve em momentos a toa. Uma que nos faz sorrir bobos no meio de uma loja qualquer, ao ver um cd que lembra uma pessoa especial.

Podemos sentir uma saudade que parece nos tirar o chão, quando algo importante acaba, quando uma pessoa querida se vai. Mas sabemos que não é tristeza pura, mas saudade do que se passou.

Mesmo assim a saudade reconforta. Alguns podem até dizer que isso é viver no passado, e realmente, não se pode viver de saudades do que se foi. Mas alguns dias, apenas aqueles especiais, geram lembranças que dão ânimo e alegria, saudade boa e perene.


Hoje senti saudades de você.

imagem: Pedaço da quarta capa do Pieces #2, feita por Mario Cau.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Mil anos depois

Gedda Headz - Spaced Out from jayjayp on Vimeo.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O Amor...

Em homenagem ao dia dos namorados estou colocando um texto aqui que fala sobre amor.
Não, não estou falando de amor como a maioria das pessoas o vivencia, mas de uma forma de amar.
Algo que eu escrevi aos meus 15 anos de idade. Aproveitem...
Leiam como um diálogo, leiam como duas coisas separadas, leiam como um texto só, e interprete como quiser... pois assim é mesmo o amor...




VOCÊ ESTÁ ERRADA!
Eu... Mereço!
MUITO ERRADA MESMO!
Deus! Como eu o amo por me mostrar isso!
EU NÃO CONSIGO ACREDITAR DE COMO VOCÊ ME INCOMODA!
Eu sempre estou errada, eu sou errada.
POR QUÊ A SENHORITA CONTINUA RINDO?
Sou culpada, toda a culpa é minha.
ACHA TUDO ISSO ENGRAÇADO?
Bata! Purifique minha alma e aparência!
MESMO! CORAGEM SUA SE PORTAR DESSA FORMA!
Como eu pude pensar que eu poderia contra ti!
ACHO QUE VOCÊ MERECE UM CASTIGO!
Muito obrigada por ser mais forte que eu!
ARGH! SANGUE! COMO VOCÊ PODE SANGRAR DESSA FORMA!
Muito obrigada por usar de violência!
O NOJO QUE EU SINTO É O MESMO!
Muito obrigada por me amar tanto!
VOU DEIXÁ-LA AÍ MAIS UM TEMPO, E PENSE BEM!
E por favor, volte.
DA PRÓXIMA VEZ SE COMPORTE MELHOR!
Por favor, volte para mim amanhã!



Que surpresas a vagabunda me trouxe hoje?
Eu te amo!
Que espécie de distúrbio atingiu sua cabeça?
Eu sei, eu não fui uma boa menina!
Atitude de respeito para uma puta!
Eu sou sua, só sua, uma puta! Bata mais!
Viu! Mulheres são todas como você, merecem!
O cheiro que eu gosto! Meu sangue, seu suor!
Merecem o que eu te dou!
Eu sinto toda a força! Bata mais!
Puta!
Meu anjo! Senhor!
Sente o meu brinquedinho? Quer provar?
A lâmina fere somente meu corpo!
Gosta de sangrar! Eu sei toda mulher gosta!
Mantém o meu amor, a lâmina!
Vou te deixar sangrar!
Deixe-me!
Pode crer que eu vou!
Mas por favor, volte!
DA PRÓXIMA VEZ SE COMPORTE MELHOR!
Por favor, volte para mim amanhã!



Muito mau, muito mau mesmo!
Sim, maldade! Eu sinto a maldade!
A maldade de mulheres destrói o mundo!
Correndo, pulando, gritando!
E o mundo deve ser protegido!
Nos revelando!
Tá vendo! O mundo deve ser protegido!
A chama na sua mão me lembra um anjo!
Queima sua vaca!
Aaaaaaahhhhhh! Redenção!
Você deve chorar mesmo! De dor!
Como eu pude pensar que eu poderia contra ti!
Chora! Seus olhos não mereciam mais ver!
Não consigo! Ver é difícil!
Você era uma vaca de grife!
EU era feia, muito feia, antes de você!
Agora, só sabe feder!
Muito obrigada por me amar tanto!
Vou mesmo é cuspir em você!
E por favor, volte.
DA PRÓXIMA VEZ SE COMPORTE MELHOR!
Por favor, volte para mim amanhã!




Eu não quero mais!
Salvar-me, você ainda precisa!
A maldade de mulheres destrói o mundo!
Você prometeu que não me machucaria!
E você me destrói! Eu não quero mais!
Não me solte!
Eu não quero sentir você de novo!
Não me deixe!
Deixe-me!
As coisas lindas que me disse eram mentira!
Eu não sou mais seu campeão!
Você disse que me salvaria!
Cala a boca!
Isso! Ajude-me!
Não! Desculpe-me!
Não! Por quê me tortura com essas palavras?
Se não vai, eu te levo embora!
Você, você...
Agora, não volte mais!
E por favor, volte.
E não me procure!
Por favor, volte para mim amanhã!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O Poder das Palavras


Eu não sou uma pessoa religiosa.
Confesso que tentei ser, por diversas vezes, mas a minha curiosidade me impedia de permanecer em apenas uma fé. E o meu pragmatismo também.
Nem posso me considerar uma grande estudiosa em religiões, já que nunca me aprofundei em demasia em nenhum dos estudos que eu fiz sobre o assunto. Mas um estudo em especial me cativa a atenção, a Cabalá. Sou muito menos que uma iniciante no estudo e me falta elementos para tecer comentários mais elaborados.
No entanto, vou citar aqui uma das coisas que mais me intriga no assunto, O PODER DAS PALAVRAS. Na Cabalá dizem que cada palavra possui um significado muito maior que apenas o semântico, que cada letra do alfabeto hebraico representa um universo inteiro de significados, e que se o universo perdesse uma delas tudo estaria perdido. Dependemos dessas palavras para nos comunicarmos com D’us.
Indo para lados um poucos diferentes temos ainda o mito que, dentro da magia, se soubermos o nome verdadeiro de alguma coisa, teremos o controle sobre ela. Seja ele o mago mais poderoso do mundo, poderia ser invocado diante da menção de seu nome verdadeiro. Por isso que, dentro de muitas religiões pagãs, as pessoas são renomeadas. Mantendo o seu nome mágico em sigilo.
De uma maneira geral, a humanidade respeita o poder das palavras.
Fugindo um pouco do universo metafísico temos os artistas e escritores. Temos a arte em palavras. Quem poderia dizer a um fã confesso de Senhor do Anéis que aquele universo é pequeno, apenas por ser descrito em palavras? Ele é menos importante por ser um livro?
A poesia, que muitas vezes mudou a sociedade de maneira drástica é menos revolucionária por ser em papel? Onde a sociedade estaria sem as palavras profundas e provocativa de muitos autores? Marx, Dostoievski, Freud... apenas para citar alguns.
Então, hoje alguém estava discutindo sobre a validade de se apaixonar por alguém que se conhece apenas por suas palavras, por suas opiniões. O dilema moderno do Real x Virtual. Longe de mim tentar chegar a um consenso sobre o assunto, mas queria colocar aqui a minha opinião.
Quando somos mais novos temos uma tendência a nos apaixonarmos em uma velocidade grande, muitas vezes platonicamente, muitas vezes por aquele menina/o bonito da nossa sala. Ou nossos professores. Temos na nossa literatura “nerd” milhares de casos, hehehe... Peter Parker e Mary Jane, Superman e Lois Lane (afinal a Lois se apaixona pelo Superman pelo que ele representa, muito mais do por quem ele é).
Mas de fato podemos dizer quem são essas pessoas? Quem é aquela menina bonita que trabalha com vc?
O que nos define como pessoa vai muito além da aparência, tem muito mais a ver com nossas convicções, com nossos gostos pessoais.
É claro que a aparência é importante para estabelecer uma relação, principalmente por que é a primeira coisa que nos deparamos a conhecer alguém.
Mas e se pudéssemos saber características de uma pessoa sem conhecermos sua aparência? E se soubéssemos suas opiniões mais intimas sem necessariamente ver a pessoa? Seria possível admirarmos e depois de um tempo (um ano ou mais talvez) de contato intenso (diário) nos apaixonarmos por essa mesma pessoa?
O ambiente virtual nos propicia uma coisa muito semelhante a isso.
A possibilidade de sabermos quem é alguém, não apenas como ela se parece, a possibilidade de vermos a pessoa sem todas as máscaras e convenções que a sociedade nos obriga a usar em ambientes como o trabalho, faculdade, balada.
Como, no ambiente de trabalho poderíamos saber se a pessoa gosta de ruivas ou morenas? Como poderíamos saber se essa pessoa conhece cultura russa? E quantas pessoas se apaixonam sem ao menos saber isso?
Se estamos em uma sociedade que aceita plenamente que alguém se apaixone pela aparência de alguém, por que não aceitar que exista o mesmo sentimento pelo que a pessoa diz, ou demonstra ser?
É necessário que tipo de informações para que nasça um sentimento verdadeiro?
Bom, meu texto está com mais perguntas que respostas, hehehe. Mas a idéia é essa mesmo. Levantar questões que muitas vezes não pensamos, questionar as convenções estereotipadas. Coisas que pessoas anárquicas, insatisfeitas com as convenções, intensas deveriam se questionar. A política, a revolução e a paixão são feitas por palavras. Afinal, as palavras tem poder.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Nerdquest

Espaço aéreo brasileiro, entre SP e MS.

Acabei de ler Nerdquest, de Pedro Vieira, e fiquei com uma vontade enorme de fazer uma resenha sobre o livro. E buscando os meus canais achei que o melhor seria publicar essa resenha aqui no blog. Espaço abandonado por mim há milênios, mas ainda um espaço que posso chamar de meu.
Ontem, depois da gravação de uma entrevista onde o autor estava presente (e por insistência característica), consegui uma cópia de Nerdquest.
Como ia viajar do Rio de Janeiro para Campo Grande, com conexão em São Paulo, resolvi trazer o livro comigo. E qual não foi a minha surpresa quando “devorei” em menos de uma hora e meia a história de Lucas e seus amigos.
Foi vergonhoso, eu ria sozinha dentro do avião! As pessoas olhavam torto e até meu filho, Daniel, pediu para que eu parasse. Uma leitura rápida e divertida, com uma narrativa leve e despretenciosa.
Pedro consegue materializar os personagens na sua frente. Eu reconheci ali vários amigos meus, assim como eu mesma e diversas situações que todo nerd já passou na vida.
Destaque especial para a cena da dinâmica em grupo e para a sessão de RPG, hilárias!
O livro conta um fragmento de vida de Lucas (juro que fiquei com curiosidade para saber mais) e seus amigos pouco antes da estréia do filme “Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel” (será que isso foi um spoiler?).
Eu estava lá, naquela fila de cinema! Não exatamente na fila descrita no filme, mas estava cedo, depois do réveillon esperando ansiosamente as portas se abrirem. Quem não estava?
O nerd travado, o nerd de sebo, o nerd insistente, a she-nerd, a namorada chata, estão todos lá!
A única pena, ou não, é que Nerdquest não é um livro para ser indicado para sua irmã patricinha. Quer dizer, o tema do livro é universal, mas 90% da graça está nas referências, coisa que poucas pessoas de “fora” dificilmente entenderia.
Pode parecer esnobe ou mesmo sectário, mas a verdade é que esse é um livro escrito por um nerd para outro. Se você se encaixa nesse perfil esse livro é diversão garantida.
Parabéns, Pedro!

* Esse artigo foi escrito no dia 22/05/2009

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Dias de Ficção

Mais um dia de ficção.

São meus dias de consumir intensamente obras fictícias, como o próprio nome já diz, e hoje foi meu dia de Californication. Um escritor que não escreve, pronto apenas para transar com qualquer coisa que se mova e use saia (menos escoceses) me fez lembrar de mim mesma. Qual é exatamente o vazio que o sexo preenche na nossa vida?
Tá tá, estou preparada para as piadas, mas além da aparente piada temos uma questão real, o que a presença de outra pessoa supre em nós mesmos?
Eu não estou conseguindo escrever.
Infelizmente tenho uma relação estúpida com as obrigações, me considero responsável por milhares de coisas que não sou necessariamente, apenas pela minha vontade. Considero decepcionar certas pessoas impensável, mesmo não me agradando, mesmo me decepcionando. Obrigações incompatíveis com a realidade, apenas aquela da minha cabeça. Uma louca que acha que deve levar todas as coisas em suas costas, passado, presente e futuro.
Mas nada disso é meu de verdade.
O passado deve ficar onde ele está, bem longe desse momento.
O presente deve ser vivido sem a ansiedade do que está por vir.
O futuro vai ser, não podemos prever, muito menos sofrer por isso.
Eu vivo no passado e no futuro, muito pouco no meu presente.
Não consigo escrever como o personagem principal de Californication, mesmo escrevendo compulsivamente, o dia todo. Eu tenho esse blog, o blog da revista, um diário e falo o dia pelo MSN e e-mail com várias pessoas, sem contar o Orkut. Passo a maior parte do meu dia digitando, escrevendo coisas, mas que valor elas tem? É isso, tudo que eu quero dizer?
Não.
Nada disso é a minha voz. Nada disso é o que eu quero dizer.
A minha impressão é que nos afundamos em esperanças emocionais, uma montanha-russa, tentando achar algum sentido. Algo que preencha o vazio de não dizer o que se quer. De não se fazer o que quer. Qual é a responsabilidade de alguém que assume muito mais que se pode?
É um desejo tão forte de auto-destruição, como de um viciado em heroína. 
Que vida temos quando olhamos em volta e não somos amados por nada?
O cinismo nubla tanto as coisas, que nem mesmo quando nos dizem que existe amor podemos acreditar. Pessoas tolas assim como eu. Assim como o escritor que não escreve. 
Quando consigo me livrar de coisas que me prendiam no passado posso perceber como é vazia a aparência que eu vivo. Uma casca oca. 

 
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